As portas do inferno prevaleceram contra ela?

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Uma das mais comuns objeções feitas contra a posição sedevacantista é que, se for verdade que Francisco ou qualquer um de seus cinco predecessores não é um papa válido, isso significaria que as portas do inferno teriam prevalecido contra a Igreja e, portanto, a promessa de Cristo em Mateus 16,18 de que isso jamais aconteceria teria falhado. Embora se possa presumir que a maior parte das pessoas que estudam o sedevacantismo já possam saber de antemão que ninguém o apoiaria se fosse assim tão fácil refutá-lo, ainda é útil reexaminar essa questão em detalhe.

A fim de julgar adequadamente a objeção, segundo a qual o sedevacantismo implicaria que Nosso Senhor Jesus Cristo falhou em manter a promessa de que as portas do inferno não prevaleceriam contra sua Igreja, devemos fazer três coisas: (1) examinar o que Nosso Senhor realmente prometeu, (2) descobrir como a Igreja compreendeu essa promessa antes de nós e, por fim, (3) aplicar essas coisas à situação em que nos encontramos hoje. Em outras palavras, o que Nosso Senhor realmente prometeu e o que isso significa para a Igreja desde o Vaticano II? Vamos agora responder essas três questões.

I. A PROMESSA DE NOSSO SENHOR

Comecemos citando a passagem da Escritura dentro do contexto:

E veio Jesus para as partes de Cesareia de Felipe, e fez a seus discípulos esta pergunta, dizendo: Quem dizem os homens que é o Filho do homem? Uns dizem que João Batista, mas outros que Elias, e outros que Jeremias, ou algum dos profetas. Disse-lhes Jesus: E vós quem dizeis que sou eu? Respondendo Simão Pedro disse: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. E respondendo Jesus lhe disse: Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne e o sangue quem te revelaram, mas sim meu Pai que está nos Céus. Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela. E eu te darei as chaves do reino dos Céus e tudo o que ligares sobre a terra será ligado também nos Céus; e tudo o que desatares sobre a terra será desatado também nos Céus.

(Mateus 16,13-19)

Essa é a ocasião em que Nosso Senhor anuncia a Simão Pedro que ele será a cabeça de sua Igreja. Logo, ele lhe dá um novo nome, Pedro, a fim de assinalar a natureza, função e importância desse incomparável ofício. Perceba que Nosso Senhor fala no futuro: “Eu edificarei a minha Igreja” – porque naquele momento a Igreja ainda não existia e, portanto, Pedro não era ainda o Papa. Ele só vai se tornar realmente Papa depois da Ressurreição, quando Cristo o manda apascentar o seu rebanho. O Primeiro Concílio do Vaticano ensinou-o explicitamente: “E somente a São Pedro conferiu Jesus, após sua Ressurreição, a jurisdição de pastor e chefe supremo de todo o seu rebanho, dizendo ‘apascenta os meus cordeiros’, ‘apascenta as minhas ovelhas.’ [Jo 21,15-17]” ((Denz. 1822).

Apesar do Papa ser tipicamente referido como a cabeça da Igreja, propriamente falando ele é a cabeça visível da Igreja, ao passo que Cristo segue sendo, por todo o tempo, sua cabeça invisível. Por conseguinte, o Papa é chamado o vigário de Cristo, isto é, o substituto ou suplente: “Pois Pedro, em virtude de seu primado, é somente o vigário de Cristo; de modo que existe apenas um chefe deste corpo, nomeadamente Cristo, o qual nunca deixa de guiar a Igreja invisível, embora, ao mesmo tempo, a governe visivelmente através daquele que é seu representante na terra.” (Papa Pio XII, Encíclica Mystici Corporis, n. 40).

Assim como não existiria a necessidade de um cabeça-representante antes da Ressurreição, quando Cristo ainda estava sobre a terra, também faz sentido dizer que Cristo ainda não havia feito de São Pedro Papa mesmo depois de sua Ressurreição e antes de sua Ascensão aos Céus. No entanto, como Papa Pio XII assinalou, “Entre Cristo e Pedro existiu, desde o dia da promessa em Cesareia de Felipe até sua realização nos arredores do mar de Tiberíades, um vínculo misterioso, mas sumamente real, ocorrido uma vez no tempo, mas que tinha raízes profundas nos eternos desígnios do Todo-Poderoso.” (Alocução ao Colégio de Cardeais, 2 de junho de 1944).

Ademais, é muito significativo que, antes de prometer que a Igreja não seria vencida pelas portas do inferno, Nosso Senhor tenha trocado o nome de Simão para Pedro, isto é, Rocha, especialmente quando tomamos em consideração o que Nosso Senhor ensinou em outra parte do Evangelho:

Todo aquele pois, que ouve estas minhas palavras e as observa, será comparado ao homem sábio, que edificou a sua casa sobre a rocha; e veio a chuva, e transbordaram os rios, e assopraram os ventos, e combateram aquela casa, e ela não caiu; porque estava fundada sobre a rocha. E todo o que ouve estas minhas palavras e não as observa será comparado ao homem sem consideração, que edificou a sua casa sobre a areia; e veio a chuva, e transbordaram os rios, e assopraram os ventos, e combateram aquela casa, e ela caiu, e foi grande a sua ruína.

(Mateus 7,24-27)

Assim fica fácil entender por que Nosso Senhor chama primeiro Pedro de rocha e só depois procede dizendo que as portas do inferno não prevalecerão contra a Igreja, que está fundada sobre essa mesma rocha. É também impressionante que Nosso Senhor anuncie o ofício petrino a Simão-Pedro logo depois dele professar sua fé em Cristo como Filho de Deus vivo (cf. Lc 22,31-32). Papa Pio IX destacou-o num discurso proferido em 1873:

Tal era a fé de Pedro, tal deve ser a nossa. A Fé era a mais forte característica do Príncipe dos Apóstolos. Ela foi o que o fez responder a Cristo: Tu es Christus Filius Dei vivi, ela foi o que lhe garantiu o título de bendito, Beatus es, Simon Bar-Jona, quia caro et sanguis non revelavit tibi: Bendito és tu, porque nem a carne, nem o sangue, puseram sobre seus lábios a confissão de minha divindade; senão porque é meu Eterno Pai que a revelou dos Céus: quia caro et sanguis non relavit tibi, sed Pater meus qui in coelis est. Dela procede o mandato que estabelece Pedro como o fundamento da Igreja.

(Papa Pio IX, Alocução a uma delegação católica internacional, 7 de março de 1873 in Papal Teachings: the Church, p. 238, n. 420)

A fé de São Pedro desempenha, pois, um papel essencial na hora de fazê-lo Papa, a rocha firme sobre a qual a Igreja está fundada. Isso também é confirmado pelo Papa Pio XI: “Na mesma hora em que Pedro, na presença de todos os Apóstolos e discípulos, confessou a sua fé em Cristo, o Filho de Deus vivo, a resposta que ele recebeu como recompensa de sua profissão de fé foi aquela que edificou a Igreja, a única Igreja de Cristo, sobre a rocha de Pedro.” (Encíclica Mit Brenender Sorge, n. 22).

Durante a última ceia, Jesus rezou especificamente para que esta fé não esmorecesse: “Simão, Simão, eis que Satanás vos busca com instância para vos joeirar como trigo; mas eu roguei por ti para que a tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos.” (Lc 22,31-32). Nosso Senhor, sendo Deus, certamente obteve o efeito desejado. Uma fé indefectível é, portanto, uma das características essenciais da cabeça visível da Igreja, garantida por sua cabeça invisível. Comentando essa passagem do Evangelho de São Lucas, Papa Pelágio II escreveu o seguinte para o bispo cismático de Istria:

Vós sabeis que o senhor proclama no Evangelho: Simão, Simão, eis que Satanás vos busca com instância para vos joeirar como trigo: mas eu roguei por ti para que a tua fé não desfaleça: e tu, uma vez convertido, confirma os teus irmãos.

Considerai, caríssimos, que a Verdade não poderia ter mentido, nem a Fé de PEDRO poderá ser abalada ou mudada. Porque, embora o demônio tentou joeirar todos os discípulos, o Senhor atesta que Ele mesmo intercedeu por Pedro somente, e desejou que os demais fossem confirmados por ele; a ele também, em consideração do maior amor que mostrou a Nosso Senhor perante os demais, foi confiada a tarefa de apascentar o rebanho [cf. Jo 21,15ss]; e a ele também o Senhor confiou as chaves do Reino dos Céus e sobre ele prometeu edificar a sua Igreja, garantindo que as portas do inferno não prevaleceriam contra ela [cf. Mt 16,16ss]. Mas, porque o inimigo do gênero humano não cessa de semear o joio junto da boa semente da Igreja do Senhor até o fim dos tempos [Mt 13,25] e, portanto, para que ninguém porventura, com zelo maligno, presumisse, instigado pelo demônio, alterar e tirar conclusões no que diz respeito à integridade da fé; e para que não suceda que, em virtude disso, vossas mentes, talvez, possam ter sido confundidas, julgamos necessário, por meio desta presente epístola, exortar com lágrimas, o vosso retorno ao coração de vossa mãe Igreja, e enviar a vós satisfação com respeito à integridade da fé…

(Papa Pelágio II, Carta Apostólica Quod ad Dilectionem; Denz. 246)

Vemos aqui que a correta interpretação de Lc 22,31-32 é que a Fé de Pedro não pode ser “abalada ou mudada”, por conta disso, o Papa Pelágio oferecia a “integridade da Fé” aos pastores errantes. Esse também é o ensinamento do Vaticano I (cf. Denz 1836-37), como veremos em detalhe mais adiante.

Até aqui ficou claro que em Mateus 16,18 Nosso Senhor Jesus Cristo promete a Pedro que ele será Papa, a pedra sobre a qual a Igreja é construída, em virtude de sua fé, e isso vai impedir que “as portas do inferno” prevaleçam contra a Igreja. Mas o que se entende por essas misteriosas “portas do inferno”?

O o que são as portas do inferno que não prevalecerão?

A fim de entender o que jamais prevalecerá contra a Igreja Católica, faz-se obviamente necessário compreender o que se entende por “portas do Inferno”. Se investigarmos a doutrina católica sobre essa matéria, encontraremos as seguintes respostas:

A falsa assembléia, que sem a Sé Apostólica… se reuniu, em oposição às tradições dos Santos Padres, contra as imagens divinas, seja declarada anátema na presença de nossos delegados, e que a palavra de Nosso Senhor se cumpra, que “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” [Mt 16,18] e ainda “Tu és Pedro…” [Mt 16,18-19], cujo trono, mantendo o primeiro lugar no mundo inteiro, irradia e conserva o seu lugar como chefe de toda a Igreja de Deus.

(Papa Adriano I, Carta Apostólica Pastoralibus Curis; Denz. 298).

Aqui Papa Adriano claramente indica que as portas do inferno serão impedidas de prevalecer pelo Papa, pelo fiel cumprimento do ofício papal, especialmente (no caso citado) pela condenação dos iconoclastas, a fim de que seus erros e sacrilégios não corrompam a verdadeira Igreja e manchem sua veste imaculada, que é a pureza da verdadeira Fé.

Tendo essas matérias sido tratadas com máxima exatidão, temos em mente aquilo que foi prometido sobre a Santa Igreja e Aquele que disse que as portas do inferno não prevalecerão contra ela (por tais nós entendemos as línguas mortíferas dos hereges): temos em mente também o que foi profetizado sobre a Igreja por Oseias quando ele disse eu vos prometerei a mim e vós conhecereis o Senhor: e Nós mencionamos também o demônio, o pai da mentira, as línguas incontidas dos hereges, seus escritos heréticos juntamente com os próprios hereges, os quais se obstinam em suas heresias até a morte.

(Segundo Concílio de Constantinopla, Sentença contra os Três Capítulos.)

Foi o Papa Virgílio que aprovou os decretos do Constantinopla II em 553, e nós o vemos ali explicitamente as portas do inferno identificadas com “as línguas mortíferas dos hereges“.

A Santa Igreja, edificada sobre a rocha, que é Cristo, e sobre Pedro ou Cefas… jamais será vencida pelas portas do inferno, que são as disputas dos hereges que conduzem os vãos à ruína; assim a Verdade mesma prometeu, pela qual é verdadeiro o que quer que seja verdade: “as portas do inferno não prevalecerão contra ela” [Mt 16,18]. O mesmo Filho declara que ele obteve o efeito da promessa do Pai através de orações dizendo “Simão, eis que Satanás etc.” [Lc 22,31]. Portanto, haverá alguém tão louco a ponto de ousar considerar Sua oração de qualquer modo vã, onde aquele que quer é também aquele que pode? Pela Sé do chefe dos Apóstolos, nomeadamente pela Igreja Romana, através do mesmo Pedro e também seus sucessores, não foram os comentários de todos os hereges reprovados, rejeitados e vencidos, e não foram fortalecidos os corações dos irmãos na fé de Pedro, que até agora não caíram, nem jamais cairão?

(Papa São Leão IX, Carta Apostólica In Terra Pax; Denz. 351.)

Papa São Leão IX também não deixa duvida quanto à identidade das portas do inferno: elas são “as disputas dos hereges”.

Foi, portanto, este carisma de verdade e de fé indefectível, concedido divinamente a Pedro e a seus sucessores nesta cátedra, a fim de que desempenhassem seu sublime encargo para a salvação de todos, para que assim todo o rebanho de Cristo, afastado por eles do pasto venenoso do erro, fosse nutrido com o pábulo da doutrina celeste, para que assim [removida] qualquer ocasião de cisma, se conservasse unida a Igreja toda e, apoiado no seu fundamento, se mantivesse firme contra as portas do inferno.

Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática Pastor Aeternus, cap. 4; Denz. 1837.

Aqui o Concílio do Vaticano, com a autoridade de Pio IX, declara que o que impede as portas do inferno de prevalecerem é o exercício dos deveres do Papa de proteger os fiéis do erro e da heresia, de nutri-los com a verdadeira doutrina e assim de remover as ocasiões de cisma. Tudo por causa do “carisma de verdade” e da “fé indefectível” que foi “concedido divinamente a Pedro e seus sucessores” pelo Cristo Senhor. Desse modo, sabemos que as portas do inferno seriam contrárias a tudo isso, nomeadamente, prevaleceriam se o Papa porventura alimentasse o rebanho com o “pasto venenoso do erro”, isto é, se ele ensinasse heresias e outros erros no lugar da sã doutrina.

II. O PAPADO É O GUARDIÃO INFALÍVEL DA FÉ

Papa Pio XIIAgora que entendemos o que são as portas do inferno que jamais prevalecerão contra a Igreja fundada por Nosso Senhor, podemos aplicar este conhecimento à promessa divina feita em Mateus 16,18 e tirar uma conclusão bastante objetiva: o Papado é a garantia de que a Igreja Católica não será vencida pela falsa doutrina. É assim porque o Papado foi instituído pelo próprio Deus como a pedra sobre a qual a Igreja se sustenta, e esta pedra foi estabelecida pela Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, Ela mesma garante a fé indefectível do Papa, não só a de São Pedro, mas também de todos os seus legítimos sucessores (cf. Denz. 1824-25). Esse é o motivo pelo qual a Igreja pode e ensina, com forte ênfase, que jamais seremos desviados pela firme adesão à Santa Sé e pela completa submissão de intelecto e vontade ao Vigário de Cristo.

Nada e ninguém pode contradizer essa doutrina, porque a Igreja a ensina com autoridade, em grande parte infalivelmente. Não pode ser negada, posta em duvida, relativizada, diminuída ou ignorada – não importa o que aconteça. A verdade da doutrina católica é garantida pelo próprio Cristo, e não está condicionada pelas peculiaridades do tempo ou circunstâncias em que nos encontramos. Portanto, ninguém pode apelar para conceitos pseudo-teológicos tais como “desorientação diabólica” contra tal ensinamento, nem afirmar que essa doutrina se aplica somente a um determinado período da história da Igreja, mas não hoje – aliás, quem teria autoridade para dizê-lo? Na realidade, tais ideias são de caráter modernista, pois elas enfraquecem a validade objetiva, a universalidade e imutabilidade da verdade (cf. Papa Pio X, Encíclica Pascendi, nn. 26-28; Decreto Lamentabili Sane, nn. 58-59).

Seguem mais alguns excertos colhidos do ensinamento magisterial da Igreja que confirmam e sublinham a nossa conclusão de que o Papado – entendido como a instituição divinamente protegida que impede as portas do inferno de prevalecerem contra a Igreja – está, de fato, correta:

Desses eventos os homens deveriam perceber que todas as tentativas de destruir a “casa de Deus” são vãs. Pois esta é a Igreja fundada sobre Pedro, “pedra” não somente no nome, mas em verdade. Contra a qual “as portas do inferno jamais prevalecerão” [Mt 16,18], “pois está fundada sobre a rocha” [Mt 7,25; Lc 6,48]. Nunca houve um inimigo da religião cristã que não estivesse ao mesmo tempo em ferrenha guerra contra a Sé de Pedro, uma vez que sabem que, enquanto esta Sé se mantivesse forte, a sobrevivência da religião cristã estaria garantida. Como Santo Irineu proclamou abertamente a todos: “pela ordem e sucessão dos Pontífices Romanos, a tradição dos Apóstolos na Igreja e a proclamação da verdade chegou até nós. Essa é a mais plena demonstração de que é a única e a mesma fé viva que foi preservada dentro da Igreja até agora, desde os tempos dos Apóstolos, e ela foi transmitida em verdade.” [Adversus Haereses, livro 3, cap. 3].

(Papa Pio VII, Encíclica Diu Satis, n. 6)

Está cátedra [de Pedro] é o centro da verdade e da unidade católica, isto é, a chefe, mãe e mestra de todas as igrejas, para a qual toda honra e obediência devem ser dirigidas. Toda igreja deve estar de acordo com ela em virtude de sua maior preeminência – isto é, aqueles que são, em todos os respeitos, fiéis…

Vós bem sabais que os inimigos mortais da religião católica têm sempre movido uma guerra feroz, mas sem sucesso, contra esta Cátedra; eles são, de nenhum modo, ignorantes do fato de que a religião mesma jamais pode vacilar ou cair enquanto esta Cátedra permanecer intacta, a Cátedra que está assentada sobre a rocha que as orgulhosas portas do inferno não podem vencer e na qual existe a solidez integral e perfeita da religião cristã. Portanto, em virtude de vossa especial fé na Igreja e especial piedade perante a mesma Cátedra de Pedro, Nós vos exortamos a dirigir constantemente vossos esforços em fazer que o povo fiel de França evite os embustes ardilosos e os erros desses conspiradores, desenvolvendo uma filial afeição e obediência a esta Sé Apostólica. Sede vigilantes em atos e palavras, a fim de que o fiel possa crescer em amor por esta Santa Sé, a venerando e aceitando com total obediência; eles devem executar o que quer que a própria Sé ensine, determine e decrete.

(Papa Pio IX, Encíclica Inter Multiplices, nn. 1 e 7)

A união com a Sé Romana de Pedro é… sempre o critério público de um católico… “Não se pode crer que os que não ensinam a fé de Roma preservam a a fé católica.”

(Leão XIII, Encíclica Satis Cognitum, n. 13)

Na Igreja Católica o Cristianismo está encarnado. Ela se identifica a si mesma como aquela sociedade perfeita, espiritual e, em sua própria ordem, soberana, que é o Corpo Místico de Cristo e que tem por sua cabeça visível o Romano Pontífice, sucessor do Príncipe dos Apóstolos. Ela é continuadora da missão do Salvador, a filha e herdeira de sua redenção. Ela tem pregado o Evangelho, e o tem defendido ao preço de seu sangue, e – fortalecida pela Assistência Divina e por aquela imortalidade que lhe foi prometida -, ela não tem qualquer termo com o erro, mas permanece fiel ao comando que recebeu de levar a doutrina de Jesus Cristo até os confins da terra e guardá-la em sua inviolável integridade.

(Papa Leão XIII, Carta Apostólica Annum Ingressi)

Assim, os Padres do IV Concílio de Constantinopla seguindo os passos dos antepassados, publicaram esta solene profissão de fé: “A salvação consiste antes de tudo em guardar a regra da fé verdadeira […]. E como a palavra de Nosso Senhor Jesus Cristo, que disse: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja” [Mt 16,18], não pode ser preterida, o que foi dito é comprovado pelo efeito, pois na Sé Apostólica sempre foi conservada imaculada a religião católica e celebrada a santa doutrina. Assim, não desejando absolutamente separar-nos desta fé e [desta] doutrina […], esperamos merecer encontrar-nos na única comunhão pregada pela Sé Apostólica, na qual está sólida e íntegra a verdadeira religião cristã.”

[…]

Procurando corresponder a este múnus pastoral, os nossos predecessores sempre dedicaram infatigável empenho à propagação da salutar doutrina de Cristo entre todos os povos da terra, e com igual solicitude vigiaram para que, onde fosse recebida, também fosse guardada pura e sem alteração. Pelo que os bispos de todo orbe […] referiram a esta Sé Apostólica principalmente os perigos que surgiam em assuntos de fé, a fim de que os danos da fé se ressarcissem especialmente aí, onde a fé não pode sofrer defeito.

[…]

Pois o Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro para que, por revelação sua, manifestassem uma nova doutrina, mas para que, com a sua assistência, conservassem santamente e expusessem fielmente a revelação transmitida pelos Apóstolos, ou seja, o depósito da fé. E, decerto, esta doutrina apostólica, todos os veneráveis Padres abraçaram-na e os santos ortodoxos Doutores a veneraram e seguiram, plenissimamente conscientes de que esta Sé de São Pedro sempre permaneceu intacta de todo erro, segundo a divina promessa de Nosso Senhor [e] Salvador feita ao chefe de seus discípulos: “Eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma teus irmãos.” [Lc 22,32].

Foi, portanto, este carisma de verdade e da fé indefectível, concedido divinamente a Pedro e a seus sucessores nesta cátedra, a fim de que desempenhassem seu sublime encargo para a salvação de todos, para que assim todo o rebanho de Cristo, afastado por eles do pasto venenoso do erro, fosse nutrido com o pábulo da doutrina celeste, para que assim [removida] qualquer ocasião de cisma, se conservasse unida a Igreja toda e, apoiado no seu fundamento, se mantivesse firme contra as portas do Inferno.

(Concílio do Vaticano, Constituição Dogmática Pastor Aeternus, cap. 4. [ou v. Denzinger, edição portuguesa de 2010 nn. 3066, 3069ss])

Esta é a verdadeira doutrina católica sobre o Papado. Como tal, ela é uma doutrina de validade perpétua, autoritativa e obrigatória, assim como é eloquente e bela.

III. APLICAÇÃO À SITUAÇÃO ATUAL

A maior parte dos leitores já notou a que conclusão temos sido levados. Se tentamos aplicar a doutrina católica do Papado como o guardião da verdadeira fé e a indefectibilidade da Igreja aos casos de João XXIII e seus sucessores, emerge de imediato uma imagem absurda e grotesca, pois a Igreja desde 1958 – a qual nós referimos por nomes tais como Igreja do Vaticano II ou seita Novus Ordonão é definitivamente a Igreja descrita nos pronunciamentos magisteriais citados acima. Sustentar que apóstatas públicos como Paulo VI, João Paulo II e Francisco – para mencionar apenas os mais óbvios – possam ser os que mantém a Igreja intacta e impedem as portas do inferno de prevalecerem é risível. De fato, se a Igreja Novus Ordo não for o perfeito exemplo do que uma igreja defectível seria, então fica difícil imaginar o que corresponderia a tal descrição. Ainda que muitos no campo semitradicionalista digam, ao serem pressionados, que a Igreja do Concílio Vaticano II não tem defeito (quer inventando desculpas ou negando o óbvio); nós abemos bem que praticamente todos eles estão convencidos de que ela os tem. É isso o que suas próprias ações objetivamente demonstram, e também é isso o que eles normalmente estariam dispostos a admitir abertamente, fazendo até uso de mui sonoras palavras, em momentos mais tranquilos.

O fato é que ninguém no seu juízo perfeito pode olhar para a lamentável instituição do Vaticano modernista de hoje e dizer: “Eis a Arca da Salvação, fora da qual ninguém pode obter a felicidade eterna; ela é a fortaleza que mantém as forças do inferno à distância, a cidadela da verdade que se opõe firmemente aos erros do mundo enquanto nutre fielmente os verdadeiros discípulos de Cristo com o leite puro da sã doutrina e da disciplina integral.” E se porventura algum tolo dissesse tal disparate sobre a seita do Vaticano II, Francisco será o primeiro a lhe dizer que isso não é verdade!

Num recente vídeo do semitradicionalista Remnant Forum, publicado a 19 de dezembro de 2015, Michael Matt aparece reclamando que “isso não é mais a Igreja Católica”, e seu associado Christopher Ferrara, discutindo sobre esse fato evidente, explicou por sua vez que esta é uma “massiva, contínua e agora já quinquagenária fraude sobre os fiéis, uma falsa religião [!!] disfarçada de religião católica”, no entanto, ele rapidamente acrescenta sua escusa de jurisconsulto: “embora isso não seja de nenhum modo oficial” (veja 16:42 e seguintes). Vamos ignorar, pelos propósitos deste post, a mentira de que essa nova religião seja de algum modo não “oficial”, coisa que Ferrara sempre diz onde quer que isso seja conveniente, enquanto noutros momentos ele não hesita de escrever coluna após coluna condenado os erros oficiais da Nova Igreja, quer seja em suas cerimônias litúrgicas oficiais, leis disciplinares oficiais, “canonizações” oficiais, encíclicas oficiais e outros documentos “papais” e assim por diante.

Ferrara deveria parar de fazer videoconferências com o seu amigo e editor do Remnant e, em vez disso, gastar mais tempo lendo a verdadeira doutrina católica sobre a questão, tal como esta:

Pois ninguém pode provar a sua fé e afirmar ser verdadeiramente católico, se não ter parte nesta Sé Apostólica. Neste Sé Apostólica, por seu particularíssimo primado, toda a Igreja, ou seja, os fiéis, onde quer que estejam, devem aderir, e quem quer que abandone a Cátedra de Pedro sobre a qual se funda a Igreja, só pode falsamente afirmar pertencer à Igreja. É já um homem cismático e pecador que ergue uma outra cátedra contra a única Cátedra do bem-aventurado Pedro, de onde os direitos da sagrada comunhão emanam a todos os homens.

(Papa Pio IX, Encíclica Quartus Supra, n. 8 [ou v. o original italiano])

De fato, somente um milagre desse poder divino seria capaz de preservar a Igreja, o Corpo Místico de Cristo, de falha na santidade de sua doutrina, lei e fim, em meio ao manancial de corrupção e lapos de seus membros. Sua doutrina, lei e fim têm produzido abundante fruto. A fé e santidade de seus filhos geraram os mais salutares frutos. Eis uma outra prova de sua vida divina: apesar do grande número de perniciosas opiniões e grande variedade de erros, como também o vasto exército de rebeldes, a Igreja se mantém imutável e constante, “como coluna e sustentáculo da verdade” [1Tm 3,15], professando uma mesma doutrina e recebendo os mesmos Sacramentos, em sua constituição divina, governo e moral…

(Papa São Pio X, Encíclica Editae Saepe, n. 8)

Desde que Matt e Ferrara, como também John Vennari e muitos outros, em especial os adeptos da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, têm publicamente admitido que a religião que eles reconhecem como a Santa Sé não é a religião deles, é evidente que pelos seus próprios raciocínios e ideias, eles não podem considerar a si mesmos como parte da instituição que eles afirmam ser a Igreja Católica Apostólica Romana. Assim, vemos como uma bagunça teológica absurda e sem qualquer esperança pode levar as pessoas ao ponto de assumir que Francisco é o papa e sua seita é a Igreja Católica.

Para ilustrar efetivamente a absurdidade dessa doutrina, que somos constantemente convidados a aceitar através de pessoas como Matt, Ferrara e Vennari – e agora também especialmente por John Salza e Robert Siscoe, autores de um novo livro contra o sedevacantismo – reunimos num pequeno vídeo, que resume a doutrina católica sobre o Papado e a põe em contraste com a apostasia de Francisco, provando assim que Jorge Bergoglio não pode ser o Papa da Igreja Católica:

Sinta-se convidado a compartilhar esse vídeo livremente e postá-lo no Facebook, Twitter, fóruns ou mesmo colocá-lo em seu próprio blog ou página web. Convidamos Messers. Salsa e Siscoe, ou qualquer outro, a respondê-lo. Criamos uma página em separado no Novus Ordo Watch para lidar especificamente com o tópico sedevacantismo, na qual reunimos todos os posts relevantes, e onde iremos publicar todas as nossas respostas ao livro de Salza e Sicoe. Essa página pode ser acessada pelo link TrueOrFalsePope.com.

IV. O MISTÉRIO DA INIQUIDADE E A OPERAÇÃO DO ERRO

Mas qual é a resposta então? Muitos vão pedir. Se temos que eliminar a possibilidade de aquela instituição chefiada atualmente por Francisco ser a Igreja Católica, o que nos resta? A resposta a esta pergunta será encontrada no que a Divina Revelação tem a dizer sobre o que vai acontecer com o Papado nos últimos tempos. Em particular, a importante passagem da Sagrada Escritura que aparece na Segunda Carta de São Paulo aos Tessalonicenses:

Ninguém de modo algum vos engane; porque não será, sem que antes venha a apostasia, e sem que antes tenha aparecido o homem do pecado, o filho da perdição; Aquele que se opõe, e se eleva sobre tudo o que se chama Deus, ou que é adorado, de sorte que se assentará no templo de Deus, ostentando-se como se fosse Deus. Não vos lembrais de que eu vos disse estas coisas, quando ainda estava convosco? E vós sabeis que é o que agora o retém, a fim de que seja manifestado a seu tempo. Porque o mistério da iniquidade já de presente se obra; somente que aquele, que agora tem, tenha, até que este homem seja destruído. E então aparecerá o tal iníquo, a quem o Senhor Jesus matará com o sopro de sua boca, e o destruirá com o resplendor de sua vinda; A vinda do qual é segundo a obra de Satanás em todo o seu poder, e em sinais e em prodígios mentirosos, e em toda a sedução da iniquidade para aqueles que perecem; porque não receberam o amor da verdade para serem salvos. Por isso lhes enviará Deus a operação do erro, para que creiam na mentira; Para que sejam condenados todos os que não deram crédito à verdade, antes assentiram à iniquidade.

(2 Tessalonicenses 2,3-11)

Numa séria de palestras dadas em 1861, o Cardeal Henry Edward Manning (1808-1892) explicou o significado desta misteriosa profecia referente à “operação do erro” e o “homem do pecado”, aquilo que Deus permitirá nos últimos tempos. Sua Eminência não baseou suas palestras em suas próprias opiniões, mas nos Padres da Igreja e em autoridades teológicas reconhecidas. Ele nota no princípio de sua palestra: “Em se tratando desse assunto, não ousarei me aventurar em minhas próprias conjecturas, mas simplesmente apresentarei o que se encontra nos Padres da Igreja, ou no que foi dito por teólogos reconhecidos pela Igreja, tais como Belarmino, Lessius, Malvenda, Viegas, Suarez, Ribera e outros” (p. 3, v. citação completa abaixo).

Portanto, ao examinar sua exposição dessa passagem da Escritura, podemos ficar tranquilos de que o que lemos não é somente a opinião de um homem, mas o pensamento da Igreja. Cardeal Manning é apenas o mensageiro de um ensinamento que a Igreja comunicou através de várias autoridades ao longo dos séculos. Nas palavras de Sua Eminência:

Assim como existe um perpétuo operar do mistério da iniquidade, também existe um perpétuo obstáculo ou barreira a sua manifestação, que permanecerá até ser removido; e haverá um tempo determinado em que esse obstáculo será tirado do caminho… Ora, enquanto que este homem iníquo deve ser uma pessoa desregrada, que introduzirá desordem, sedição, tumulto e revolução, tanto na ordem espiritual quanto na ordem temporal, do mesmo modo aquele que impede seu desenvolvimento deverá ser seu direto antagonista depois de sua manifestação e deve necessariamente ser um príncipe da ordem, da lei de submissão, a autoridade da verdade e do direito…

Devemos agora nos aproximar de uma conclusão afirmada no começo a respeito do Anticristo que também vale para o seu oponente, nomeadamente que o poder que impede a revelação do homem desregrado não é somente uma pessoa, mas um sistema e não somente um sistema, mas uma pessoa. Numa palavra, o obstáculo é a Cristandade e sua Cabeça; portanto, é na pessoa do Vigário de Jesus Cristo, em posse da dupla autoridade de que ele foi providencialmente investido, que encontramos o direto antagonista ao princípio da desordem…

Desde a fundação da Europa Cristã, a ordem política do mundo tinha se orientado sobre o mistério da Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo; por essa razão, todos os atos públicos de autoridade, e mesmo o calendário pelo qual datamos nossos dias, são contados a partir dos anos de salvação ou a partir do “Ano de Nosso Senhor”…

[N]o dia em que se admite igualdade de privilégios aos que negam a Encarnação de Nosso Senhor Jesus Cristo, dissolve-se a vida e a ordem social orientadas pelo mistério da Encarnação e se põe em seu lugar os alicerces do naturalismo: isso é precisamente o que foi predito acerca do período anticristão…

Se a barreira que impedia o desenvolvimento do princípio da desordem anticristã tinha sido o poder de Jesus Cristo, Nosso Senhor, incorporado pela Igreja conduzida pelo seu Vigário, então nenhuma mão é poderosa o bastante e ninguém será capaz de tirá-lo do caminho, exceto a mão e a vontade do Filho encarnado de Deus mesmo…

A história da Igreja e a história de Nosso Senhor sobre a terra, correm como que em paralelo. Por trinta e três anos o Filho de Deus esteve no mundo e nenhum homem poderia lançar sua mão contra ele. Nenhum homem poderia apanhá-Lo, porque a sua “hora ainda não chegou.” Havia uma hora pré-determinada em que o Filho de Deus deveria ser entregue nas mãos dos pecadores. Ele o sabia; Ele o predisse. Ele manteve seu destino em suas própria mãos, pois ele estava protegido pelo círculo de seu próprio poder divino.

Nenhum homem poderia atravessar aquele círculo de onipotência até que chegasse a sua hora, quando por sua própria vontade ele abrisse caminho para o poder das trevas…

O mesmo vale para sua Igreja. Até chegar o tempo em que a barreira deverá, pela Vontade Divina, ser tirada do caminho, ninguém poderá lançar sua mão contra ela. As portas do inferno podem mover guerra contra ela; podem lutar e lutar como lutam agora contra o Vigário de Nosso Senhor, mas não têm o poder de dar um passo a mais, até que chegue a hora em que o Filho de Deus permitirá, por um tempo, que os poderes das trevas prevaleçam. Que Ele o permitirá por um tempo, isso se apoia no livro da profecia. Quando o obstáculo for tirado do caminho, o homem do pecado será revelado; então virá a perseguição de três anos e meio, curta, mas terrível durante a qual a Igreja de Deus retornará a seu estado de sofrimento, como no começo; e a imperecível Igreja de Deus, por sua inextinguível vida nascida do lado aberto de Jesus, que por três séculos viveu no sangue [das perseguições], viverá ainda nos fogos dos tempos do Anticristo.

(Cardinal Henry Edward Manning, Lecture III, “Who or What Restrains the Manifestation of the Antichrist?“, in The Present Crisis of the Holy See Tested by Prophecy [London, 1861], pp. 36-56; v. The Pope and the Antichrist: The Great Apostasy Foretold)

É absolutamente crucial entender de modo que não nos escandalizemos pelas terríveis aflições que a Santa Mãe Igreja tem sofrido desde o “Papa” João XXIII e seu “Concílio Vaticano II”. Esta é uma questão de profecia divinamente revelada, como o cardeal Manning deixa claro, que em algum momento o Vigário de Cristo seria “tirado fora do caminho”, por um tempo, a fim de permitir que o mistério da iniquidade se desenvolvesse. Se ele não fosse tirado do caminho, então as portas do inferno não seriam capazes de desencadear a operação do erro, pois a rocha que está no Papado, por instituição divina, a impediria infalivelmente – da mesma forma como ninguém foi capaz de tomar Nosso Senhor Jesus Cristo, antes que Ele, de livre vontade, assim o permitisse (cf. Jo 7,30; 10,18).

Não devemos deixar de notar que Sua Eminência claramente fala do Papa como uma vítima desta perseguição empreendida pelos poderes do inferno, assim como Nosso Senhor foi a Vítima em sua Paixão. Como Cristo mesmo, assim o Vigário de Cristo é o alvo dos poderes do inferno, jamais seu comparsa ou protagonista. Esse fato, aliás, encontra-se em direta oposição ao nonsense correntemente espalhado por John Salza e Robert Sicoe, cuja versão peculiar da Igreja sofredora apresenta o Papa, não como uma vítima da perseguição, mas como o seu capitão general! Isso inverte absolutamente tudo, como se convertesse a rocha que se mantém sempre firme contra as portas do inferno num anticristo que lhes acarreta.

Quando o Cardeal Manning fala da Igreja retornando ao “estado de sofrimento, como no começo”, relembramos que no começo, até Constantino, a Igreja tinha operado no subsolo, nas catacumbas, cavernas, esconderijos etc. até que a Divina Providência considerou adequado pôr fim à perseguição. Assim, não devemos ficar escandalizados ou desencorajados se agora a Igreja está mais uma vez, como foi, no subsolo e reduzida apenas a um pequeno número, pois assim foi como Deus determinou desde o princípio.

Francisco com as portas do inferno
Francisco ocupado impedindo as portas do inferno de prevalecerem na Jornada Mundial da Juventude de 2013 no Brasil…

Quem poderia duvidar de que não estamos no tempo descrito por Cardeal Manning? Sua Eminência mal poderia saber que nem se passariam cem anos entre suas preleções e a real “tirada do caminho” do Vigário de Cristo, a qual se seguiu a usurpação do trono de São Pedro pelo primeiro dos antipapas Novus Ordo, Angelo Roncalli (João XXIII), após a morte do Papa Pio XII. Mas esta é a situação na qual nos encontramos agora. Devemos salientar que a época que Deus escolheu para cada um é a mais benéfica para sua alma. Recusaremos, nós, a Providência de Deus? Colocaremos em dúvida sua infinita sabedoria, poder, ou benevolência? Deus que “quer que todos os homens se salvem e que cheguem a ter o conhecimento da verdade” (1Tm 2,4); “E até os cabelos da vossa cabeça, todos estão contados. Pois não temais, porque de maior valia sois vós outros que muitos pardais.” (Lc 12,7).

O que dizer a respeito das portas do inferno, então? Não disse o Cardeal que “o Filho de Deus permitirá, por um tempo, que os poderes das trevas prevaleçam”? De fato, assim ele o disse, mas um pouco adiante ele explica em que sentido isso deve ser entendido:

Já achamos razão para crer que, como Nosso Divino Senhor entregou-se a si mesmo nas mãos dos pecadores quando a sua hora chegou, e nenhum homem poderia lançar a mão contra Ele, antes que ele se entregasse de livre vontade ao seu poder, assim do mesmo modo será com aquela Igreja da qual Ele disse: “Sobre esta pedra eu edificarei a minha Igreja e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” [Mt 16,18]. Assim como os maus não prevaleceram contra Ele [Nosso Senhor Jesus Cristo] mesmo quando o amarraram com cordas, arrastaram para o tribunal, vendaram seus olhos, zombaram dele como se fosse um falso rei, bateram em sua cabeça como se fosse um falso profeta, ainda quando o conduziram para fora, crucificaram e, no auge de seu poder, pareciam ter completo domínio sobre Ele, de modo que Ele foi derrubado e quase se prostrou diante de sus pés; e como, precisamente no momento em que esteve morto e enterrado a vista deles, foi o tempo em que Ele foi elevado sobre todos, ressurgiu ao terceiro dia, subiu aos Céus, foi coroado e glorificado, tomando posse de sua realeza e supremo reinado, sendo constituído Rei dos Reis e Senhor dos Senhores – o mesmo deve suceder com a sua Igreja: embora por um tempo perseguida, e aos olhos do homem derrotada e pisoteada, destronada, despojada, escarnecida e esmagada, ainda nesse tempo de triunfo [do mal] as portas do inferno não prevalecerão. Existe na história uma ressurreição e uma ascensão para a Igreja, uma realeza e dominação, uma gloriosa recompensa para todos os que tenham perseverado. Como aconteceu com Jesus, ela deve sofrer no caminho de sua coroação; e quando for coroada, ficará unida a Ele eternamente.

Ninguém se deixe, então, escandalizar se a profecia fala de sofrimentos vindouros. Estamos todos acostumados a imaginar triunfos e glórias da Igreja sobre a terra – que o Evangelho será pregado por todas as nações, que o mundo se converterá e todos os inimigos serão subjugados e etc. – até alguns se mostram indispostos a ouvir que na história da Igreja haverá um tempo de grande tribulação: e, agindo assim, fazemos como os antigos judeus que esperavam por um conquistador, por um rei, pela prosperidade; e quando seu Messias veio na humildade e na paixão, não o reconheceram. Por isso, estou inclinado a pensar que muitos entre nós intoxicam suas mentes com vislumbres de sucesso e vitória a ponto de não suportarem a ideia de que esse tempo de perseguição já se aproxima da Igreja de Deus. Ouçamos, pois as palavras do profeta Daniel. Falando da pessoa de quem São João chama de Anticristo, o qual ele chama de rei que obrará de acordo com sua própria vontade, o profeta Daniel diz: “Ele usará palavras contra o Altíssimo” – que é o Deus Todo-Poderoso – “e esmagará os santos do Altíssimo”. Novamente ele diz, “Ele” – isto é, o poder desse rei – “se elevou até contra a fortaleza do céu e deitou abaixo muitos dos mais fortes, e e muitas das estrelas, e as pisou aos pés. E se engrandeceu até contra o príncipe da fortaleza, e tirou dele o sacrifício perpétuo e desonrou o lugar da sua santificação.”. Adiante, ele diz: “Faltará a hóstia e o sacrifício, e ver-se-á no templo a abominação da desolação.” Essas passagens foram tomadas do sétimo, oitavo e nono capítulos de Daniel. Eu poderia acrescentar mais, mas elas são o suficiente, pois no livro do Apocalipse (13,7), encontramos a chave para essas palavras. São João, referindo-se evidentemente ao livro de Daniel, escreve sobre uma besta, que é o poder que persegue os cristãos, que reinará sobre a terra com poder, pois “foi-lhe concedido que fizesse guerra aos santos, e que os vencesse.”

(Manning, Lecture IV, “Passion and ‘Death’ of the Church”, in The Present Crisis of the Holy See Tested by Prophecy, pp. 67-69; see The Pope and the Antichrist: The Great Apostasy Foretold)

O Filho de Deus que garantiu que as portas do inferno não prevaleceriam contra a Igreja é o mesmo Filho de Deus (cf. Heb 11,8) que também ensinou, por São Paulo e São João, que o mistério da iniquidade seria bem sucedido por um tempo. De fato, ele é o mesmo Filho de Deus que saiu completamente vitorioso de sua aparente derrota, quando parecia que seus inimigos haviam triunfado sobre ele em sua sofrida e amarga, porém gloriosa Paixão. Podemos apenas nos admirar das belezas dos caminhos de Deus – quando tudo parece perdido e o mal parece ter prevalecido, Ele prova através de seus desígnios imperscrutáveis que o caso é justamente o contrário. “Pois assim como os céus estão sobre a terra, assim os meus caminhos estão acima dos vossos caminhos, e os meus pensamentos estão acima dos vossos pensamentos”, disse o Senhor pelo profeta Isaías (55,9).

Não nos angustiemos, pois, ao tentar entender por que Deus permite a operação do erro, o mistério da iniquidade e quando será a manifestação do Anticristo. É suficiente para nós saber que o Deus de toda bondade, sabedoria e poder quis assim e desse modo sabemos que, quer compreendamos isso ou não, isso é fundamentalmente para a sua glória e salvação de seus eleitos (cf. Is 55,8-9; 1 Tm 2,3-4; 2 Ts 2,10-11; Rm 8,28).

Como foi na aparente derrota de Cristo que se encontrou sua maior vitória, assim podemos ter certeza de que assim há de ser com a sua Igreja: Embora as portas do inferno pareçam ter prevelecido, elas na verdade não prevaleceram, e isso foi profetizado de modo que não nos escandalizássemos quando esse tempo chegasse: “Desde agora vo-lo digo, antes que suceda; para que, quando suceder, creiais que eu sou.” (Jo 13,19); “Vede que eu vo-lo adverti antes.” (Mt 24,25). É a fé sobrenatural que nos dá essa certeza, uma fé não meramente humana ou uma soma de todas as probabilidades (cf. Papa Pio X, Decreto Lamentabili Sane, n. 25), mas é um dom de Deus (Ef 2,8), absolutamente indispensável para a salvação (Rm 3,28; Heb 11,6) — aquele firme assentimento da inteligência para tudo o que Deus revelou, porque ele não se engana, nem nos pode enganar: “Porque andamos por fé, e não por visão” (2 Cor 5,7).

Temos toda razão, então, para estar cheios de fé, esperança e caridade, pois embora os nossos tempos são os mais turbulentos, tudo está, por assim dizer, saindo conforme o planejado, uma vez que vemos a profecia católica se desdobrar exatamente como determinado por Deus desde toda a eternidade. Estamos suportando a confirmação do que cremos e não uma negação. O Papa São Pio X assegura-nos que Deus sempre vai tirar um bem mesmo das mais terríveis aflições que a Igreja possa padecer:

Queira o malvado ou não, Deus faz até mesmo o erro cooperar para o triunfo da Verdade, cuja guardiã e defensora é a Igreja. Ele põe a corrupção à serviço da santidade, cuja mãe e protetora é a Igreja. Das perseguições ele tira uma mais admirável “libertação dos nossos inimigos”. Por essas razões, quando os homens do mundo pensam que veem a Igreja sacudida e quase à deriva no meio da tormenta, então ela, na verdade, levanta-se ainda mais robusta, mais forte, mais pura; e mais radiante com o brilho de notáveis virtudes.

De tal modo a bondade de Deus sustenta o testemunho da divindade da Igreja. Ele a fez vitoriosa na sua dolorosa batalha contra os erros e pecados que se impregnaram dentro de suas fileiras. Através dessas vitórias se verificam as palavras de Cristo: “As portas do inferno não prevalecerão contra ela” [Mt 16,18]. No seu dia a dia ele cumpre a promessa, “Eis que eu estou convosco todos os dias até o fim do mundo” [Mt 28,20]…

(Papa São Pio X, Encíclica Editae Saepe, nn. 6-7)

As portas do inferno não podem prevalecer contra a verdadeira Igreja Católica; o Filho de Deus o prometeu. E para este fim Ele instituiu o Papado como indefectível garantia de que a Arca da Salvação seria para sempre pura na fé e unida pelos vínculos da caridade. Portanto, o papa tinha de ser primeiro “tirado do caminho” para que o mistério da iniquidade levasse a cabo sua obra má, e isso não sucedeu por acidente, nem surpresa, nem sem o prévio conhecimento e permissão de Deus. De fato, como não haveria poder terreno capaz de derrotar o Papado, Deus mesmo tinha de intervir para permitira  sua queda por um tempo, assim como Ele permitiu a hora em que seus inimigos aparentemente triunfaram sobre Ele.

E assim vemos que, embora a rocha – São Pedro e seus sucessores – possa ser tirada do caminho, ela não pode falhar. Mas se os “papas” depois de Pio XIII – a saber, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II, Bento XVI e Francisco – são verdadeiros Papas, então a rocha falhou, o que é impossível. E assim sabemos, com o maior grau de certeza, que a “operação do erro”, que começou a se manifestar a partir de 1958, “aquele que o retém” foi “tirado do caminho” de modo que as pessoas “creiam na mentira; Para que sejam condenados todos os que não deram crédito à verdade, antes assentiram à iniqüidade” (2 Ts 2,7; 10-11).

Donde: “Sai dela, povo meu, para não serdes participantes dos seus delitos, e para não serdes compreendidos nas suas pragas. Porque os seus pecados chegaram até o céu, e o Senhor se lembrou das suas iniquidades.” (Ap 18,4-5). Crê no Senhor que venceu a todos em sua aparente derrota e nos garantiu: “Passará o céu e a terra, mas não passarão as minhas palavras” (Mc 13,31).

Eis que Ele nos disse essas coisas de antemão.


Novus Ordo Watch. Have the Gates of Hell Prevailed? The Papacy and Sedevacantism. Disponível em: <http://novusordowatch.org/2015/12/have-gates-of-hell-prevailed/>. Acesso em: 16 jun. 2017.

2 comentários em “As portas do inferno prevaleceram contra ela?

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