A verdadeira causa da Reforma Protestante

Desde o começo do mundo tem existido dois elementos – o bom e o mau – lutando um contra o outro. “É preciso que hajam escândalos”, disse Nosso Senhor; São Miguel e Lúcifer combatem um ao outro no céu; Caim e Abel na família de Adão; Isaac e Ismael na família de Abraão; Esaú e Jacó na família de Isaac; José e seus outros irmãos na família de Jacó; Salomão e e Absalão na família de Davi; São Pedro e Judas na companhia de Nosso Senhor Jesus Cristo; os Apóstolos e os imperadores romanos nos primeiros tempos da Igreja de Cristo; São Francisco de Assis e Irmão Elias na Ordem Franciscana; São Bernardo e seu tio André na Ordem Cisterciense; Santo Afonso e Padre Leggio na Congregação do Santíssimo Redentor; a fé ortodoxa e a heresia e infidelidade no Reino de Deus sobre a terra; o justo e o injusto em todos os lugares.

De fato, onde está o país, cidade, vila, comunidade religiosa ou família, por menor que seja, em que esses dois elementos não estão em oposição? As parábolas do semeador e do joio são verificadas em todo parte; ainda que você esteja só, a graça e a natureza lutarão entre si. “E os inimigos do homem serão os de sua própria casa.” (Mt 10,36) Estranho dizer, não só o bom e o mau são encontrados em perpétuo conflito; mas Deus, por seus sábios desígnios, permite que mesmo os mais santos e melhores dentre os homens sejam às vezes dramaticamente opostos um ao outro e cheguem mesmo a incitar perseguição contra o adversário, embora cada qual esteja sendo guiado pelos motivos mais puros e mais santos.

“É preciso que hajam escândalos” – eis uma fatalidade, eis um alerta divino!

Tintoretto, Kampf Michaels mit Satan - Tintoretto / Fight of Michael with Satan - Tintoret, Jacopo Robusti, dit Le
Arcanjo São Miguel combatendo Satanás (Apocalipse 12,1-9) de Jacopo Tintoretto (1518-1594)

Devem existir tempestades na natureza para purificar o ar dos elementos ruins. De maneira semelhante, Deus permite que hajam tempestades – as heresias que surgem em sua igreja sobre a terra – a fim de que as doutrinas ímpias e errôneas dos hereges possam, por contraste, revelar de maneira mais clara a doutrina santa e verdadeira da Igreja. Assim como a luz em meio as trevas, tal como o ouro em contraste com o cascalho, assim como o sol entre os planetas e o sábio entre os tolos; assim está a Igreja Católica Romana entre os não católicos. “Se duas coisas de diferente natureza”, diz o homem sábio, “são trazidas em oposição, o olho prontamente percebe sua diferença.” “Deus se põe contra o mal, e a vida contra a morte; assim também está o pecador contra o justo. E olhai para todas as obras do Altíssimo. Dois e dois, e um contra o outro. (Eclo. 33,15)

Cristo, pois, permite que as tempestades de heresias trovejem sobre sua Igreja para tornar mais clara a sua doutrina divina, e para remover elementos ruinosos de seu Corpo Místico, a Igreja Católica Romana.

No começo do século XVI, à exceção dos cismáticos gregos, alguns lollardistas na Inglaterra, alguns valdenses no Piemonte, alguns albigenses ou maniqueus e alguns seguidores de Huss e Zisca, entre os boemianos, toda Europa era católica. Inglaterra, Escócia, Irlanda, Espanha, Portugal, França, Itália, Alemanha, Suíça, Hungria, Polônia, Dinamarca, Noruega e Suécia; toda nação civilizada em Europa estava em união com a fé católica. Muitas dessas nações estavam no auge de seu poder e prosperidade. Portugal estava expandindo suas descobertas para além do Cabo da Boa Esperança e formando assentamentos católicos nas Índias. Cristóvão Colombo, um católico, descobriu a América sob o patrocínio da rainha Isabel de Espanha. A Inglaterra se encontrava em um estado de grande prosperidade. As suas duas universidades católicas, Oxford e Cambridge, continham mais de 15 mil estudantes. O país estava repleto de nobres igrejas, abadias e mosteiros, e haviam hospitais onde os pobre era alimentado, vestido e instruído.

No entanto, o progresso da civilização tendia por engendrar nas pessoas um espírito de orgulho e encorajar a sanha pelas novidades. A prosperidade da Igreja levou à ostentação, e em muitos casos ao relaxamento na disciplina. Existia, como sempre existiram em todos os tempos da Igreja sem excetuar nem mesmo os tempos apostólicos, maus católicos na Igreja. De fato, o joio e o trigo crescem juntos até o tempo da colheita. A rede da Igreja captura peixes bons e maus. Os escritos de Wycliffe, Huss e seus seguidores tinham confundido o espírito de muitos. Os príncipes estavam irritados pelos limites que a Igreja impunha a sua rapacidade e cupidez. Henrique VIII, por exemplo, queria se divorciar de uma esposa com a qual ele tinha vivido por vinte anos para que assim ele pudesse se casar com uma mulher mais jovem e bonita. Ele não poderia fazê-lo enquanto reconhecesse a supremacia espiritual do Papa. Felipe, conde de Hesse, queria ter duas esposas. Nenhum Papa poderia dar-lhe permissão para casar e viver com duas esposas ao mesmo tempo. Além do mais, haviam também inúmeros nobres maus e avarentos que só estavam esperando o primeiro sinal para saquear as igrejas, abadias e mosteiros, cuja propriedade era destinada para a educação do povo e o cuidado do pobre, velho e doente em toda a Europa. E ainda haviam sacerdotes e monges querendo abraçar uma disciplina mais relaxada e muitas pessoas que estariam prontas para ceder à licenciosidade, movendo guerra contra todo princípio de religião e ordem social, assim que as circunstâncias favorecessem a erupção desse espírito de rebelião entre os indivíduos e as massas.

Ora, quando Deus, diz São Gregório, vê na Igreja muitos se comprazendo em seus vícios, e, como São Paulo observa, confessando a verdade de seus mistérios, mas pondo em descrédito a sua fé pelas suas obras, Ele os pune permitindo que, depois de terem perdido a graça, também percam o santo conhecimento de seus mistérios; e que desse modo, sem qualquer outra persuasão senão a de seus próprios vícios, eles neguem a fé. É desses que Davi falou quando disse “destroem Jerusalém até seus fundamentos” (Sl 136,7), não deixando pedra sobre pedra. Quando os maus espíritos arruinaram numa alma o edifício da virtude, eles solapam seu fundamento, que é a fé. Nesse respeito, São Cipriano assim dizia: “Não penseis que os que abandonam o seio da Igreja sejam homens bons e cristãos virtuosos. Não é o trigo que o vento leva, mas a palha; nem são as árvores com raízes profundas que se deixam arrastar pelas correntes de ar, mas sim aquelas que não têm raízes. São os frutos podres que caem das árvores, não os bons. Maus católicos se tornam hereges, na medida que a doença só progride em organismos debilitados. Primeiro, a sua fé diminui por conta de seus vícios; depois, ela é atacada pela doença; em seguida, ela morre. Uma vez que o pecado é essencialmente uma cegueira do espírito, quanto mais um homem peca, mais cego ele fica. A sua fé vai esfriando cada vez mais, a luz da chama divina vai diminuindo e logo o menor sopro de tentação ou dúvida será o bastante para extingui-la.”

Europa em 1600
A Europa em 1600, depois da Revolta Protestante.

Vejam a grande defecção da fé no século XVI, quando Deus em sua justiça permitiu que surgissem heresias contra aqueles que estavam prontos para abandonar a verdade, e contemplem a sua misericórdia para com aqueles que permaneceram unidos a ela; ele assim o fez para provar aqueles que estavam firmes na fé por meio de tribulações e para separá-los daqueles que amavam o erro; para exercitar a paciência e caridade da Igreja e santificar os eleitos; para dar ocasião ao esclarecimento da verdade religiosa e da Sagrada Escritura; para tornar os pastores mais zelosos e fazê-los ter maior estima pelo sagrado depósito da fé; em suma, para comunicar a autoridade da tradição de maneira mais clara e incontestável.

A heresia então surgiu com toda sua força, Martinho Lutero foi o seu líder e porta-voz.


Por Padre Michael Müller C.Ss.R. (1825-1899), do capítulo terceiro de seu livro The Catholic Dogma.

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