Fatos sobre a história e a natureza da Reforma Protestante

Martinho Lutero, um frade agostiniano, homem ousado e orador veemente, tendo absorvido errôneos sentimentos dos escritos heréticos de João Huss de Boemia, tomou ocasião da publicação das indulgências promulgadas pelo Papa Leão X para romper com a Igreja Católica e propagar seus novos erros em 1517 na cidade de Wittenberg, Saxônia. Primeiro ele atacou o abuso das indulgências, depois ele questionou sua eficácia e, por fim, rejeitou-as totalmente. Ele investiu contra a supremacia da Sé Romana e condenou a Igreja inteira alegando que Cristo a tinha abandonado e queria reformá-la, tanto na fé quanto na disciplina. Assim esse novo evangelista começou a sua fatal defecção da antiga fé, que foi designada “Reforma”.

Lutero pregando as 95 teses
Lutero pregando suas 95 Teses de Ferdinand Pauwels, 1872.

As novas doutrinas sendo calculadas para gratificar as más inclinações do coração humano, espalharam-se com a rapidez de uma inundação. Frederico, Eleitor da Saxônia, João Frederico, seu sucessor, e Felipe, conde de Hesse, tornaram-se discípulos de Lutero. Gustavo Érico, rei da Suíça, e Cristiano III, rei da Dinamarca, também se declararam a favor do luteranismo. Assegurou-se um lugar para ele na Hungria e na Polônia, esta última, depois de experimentar uma grande variedade de doutrinas, deixou para cada indivíduo a liberdade de escolher por si mesmo.

Munzer, um discípulo de Lutero, estabeleceu a si próprio como doutor e juntamente com Nicolas Stark deu origem a seita dos anabatistas, a qual se propagou na Suábia e outras províncias da Alemanha e nos Países Baixos. Calvino, um homem de espírito forte e obstinado, infatigável em seus trabalhos, também se tornou um reformador a exemplo de Lutero. Ele se esforçou para ter suas novas máximas recebidas em Genebra em 1541. Depois de sua morte, Beza pregou a mesma doutrina. Ela se insinuou na Alemanha, Hungria, Boemia e se tornou a religião da Holanda. Ela foi importada por John Knox, um padre apóstata na Escócia, sob o nome de presbiterianismo, onde tomou fundas raízes e se espalhou pelo reino.

Mas entre as nações defraudadas, nenhuma bebeu mais do cálice do erro que a Inglaterra. Por muitos séculos esse país foi notável no mundo cristão pela ortodoxia de sua fé, como também pelo número de seus santos. Mas por um infortuno que jamais poderá ser suficientemente lamentado, e por um inefável juízo do Altíssimo, sua Igreja foi vítima do que parecia ser a menor ameaça. A luxúria e avareza de um soberano déspota lançou abaixo o belo edifício, e arrancou fora a rocha sobre a qual ela tinha se fundado. Henrique VIII, a princípio um um valente defensor da fé católica contra Lutero, cedendo às violentas paixões que ele não teve suficiente coragem para conter, rejeitou a juridição suprema que o Papa sempre teve na Igreja e presumiu arrogar para si mesmo esse poder nos seus domínios, desferindo assim um golpe mortal na Religião. Ele então forçou seus súditos a se submeterem a mesma defecção fatal. Uma vez introduzida, isso se espalhou sobre a terra.

Henrique VIII e seu maldito juramento de supremacia
A partir do Ato de Supremacia de 1534, quem quer que assumisse um cargo público, seja ele civil ou eclesiástico, era obrigado a reconhecer não mais o papa, mas o monarca como o chefe da Igreja da Inglaterra.

Sendo por sua natureza desprovido de um princípio fixo, o protestantismo tem desde então tomado uma centena de diferentes  formas sob diferentes nomes, tais como calvinistas, arminianos, antinomianos, independentes, kilamitas, glassitas […] etc. etc. etc. Todas essas seitas são chamadas protestantes porque elas estão unidas em protesto contra sua mãe, a Igreja Católica Apostólica Romana.

Algum tempo depois, quando o espírito de reforma atingiu seu pleno desenvolvimento, Andreas Dudithius, um erudito protestante, assim escreveu em sua carta a Beza: “Que sorte de povo são esses nossos protestantes, indo para lá e pra cá, arrastados por qualquer sopro de doutrina, ora desse lado, ora do outro? Talvez seja possível saber quais são os seus sentimentos em matéria de religião hoje, mas jamais se saberá precisamente o que eles serão amanhã. Em qual artigo de fé concordam essas igrejas que rejeitam o bispo de Roma? Examine-as todas de cima abaixo e você dificilmente encontrará uma coisa afirmada por uma que não tenha sido imediatamente condenada por outra como ímpia doutrina.” A mesma confusão de opiniões foi descrita por um protestante inglês, Dr. Walton, na metade do século XVIII, ele assim escreveu no prefácio de seu Poliglota: “Aristarco mal podia encontrar sete homens sábios na Grécia; mas conosco mal são encontrados idiotas. Pois todos são doutores, todos são divinamente inspirados: nem mesmo o mais desprezível fanático se isenta de tratar seus próprios sonhos como se fossem a palavra de Deus. Aquele abismo sem fundo [de que o profeta fala no Apocalipse] parece já ter sido aberto, donde sai a fumaça que escurece o céu e as estrelas e donde se manifestam os gafanhotos pestilentos, uma raça numerosa de sectários e hereges, que renovaram todas as heresias do passado e inventaram muitas opiniões monstruosas deles próprios. Eles têm enchido nossas cidades, vilas, campos, casas e púlpitos e têm arrastado o pobre povo consigo para a abismo da perdição.” “Sim”, escreve um outro autor, “a cada dez anos, ou aproximadamente isso, a literatura teológica protestante sofre uma completa revolução. O que era admitido durante uma década é rejeitado na próxima, e o ídolo que eles adoravam é queimado para abrir caminho para novas divindades; os dogmas que eram sustentados com honra caem em descrédito; o tratado clássico de moral é banido para junto dos livros velhos; a crítica destrói a crítica; o comentário de ontem ridiculariza aquele do dia precedente e o que estava claramente provado em 1840 não é menos claramente refutado em 1850. Os sistemas teológicos do protestantismo são tão numerosos como as constituições políticas da França – uma revolução segue a outra etc.” (Le Semeur, Junho de 1840).

É realmente impossível livrar os membros de uma só seita de perpétuas disputas, mesmo no que tange às verdades essenciais da religião revelada. E essas diferenças religiosas não existem só na mesma seita, não só no mesmo país e cidade, mas até na mesma família. Digo mais, o próprio indivíduo encontra-se em flagrante contradição consigo mesmo nos diferentes períodos de sua vida. Hoje ele professa opiniões que ontem havia rechaçado e amanhã ele vai trocá-las por ainda outras. Ao fim, depois de pertencer sucessivamente a várias seitas recém-nascidas, ele geralmente termina ignorando todas elas. Por fomentarem contínuas disputas e contendas, por gerarem divisões e subdivisões, as numerosas seitas protestantes têm feito de si mesmas o opróbrio dos espíritos honestos e um motivo constante de piada da parte dos pagãos e infiéis.

Essas seitas humanas, as “obras da carne” como São Paulo as chamou, alteram de forma como nuvens, mas “não sentem o impacto”, diz Sr. Marshall, porque elas não têm substância alguma. Elas discutem muito entre si, mas ninguém se importa, nem elas mesmas se importam com o que vão se tornar amanhã. Se uma seita humana perece, sempre é fácil fazer uma outra ou meia-duzia. Elas têm a vida de vermes, propagando-se pela corrupção de outros seres. A vida delas é de tal modo semelhante a morte que, exceto pela podridão que exalam em ambos os estágios, fica impossível dizer qual é qual e, quando elas morrem, ninguém é capaz de encontrar seus túmulos. Elas simplesmente desapareceram.


Por Padre Michael Müller C.Ss.R. (1825-1899), do capítulo terceiro de seu livro The Catholic Dogma.

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