Os três ateus: o ignorante, o fraco e o satanista

O Lucifer de Dante
Lúcifer é representado por Dante como um monstro de três cabeças num lago de gelo. O lago de gelo representa a falta de caridade, as três cabeças, cada uma de uma cor diferente, representam: a impotência (amarelo claro), a ignorância (preto) e o ódio (vermelho). Lúcifer é o negador e rebelde por excelência e por isso, dos seres existentes, ele é o que menos participa dos bens comunicados por Deus, isto é, o Poder do Pai (onipotência), a Sabedoria do Filho (onisciência) e o Amor do Espírito Santo (onipresença). Donde ser essa qualidade de ateu a mais infeliz e perigosa de todas. O sábio, por outro lado, participa dessas três potências divinas na medida que progride no conhecimento da verdade e na prática da virtude pela Metafísica (estudo do ser), Lógica (estudo do pensamento) e Ética (estudo da ação).

Ateu é todo aquele que ignora ou nega a existência de Deus. Existem três tipos de ateus entre os seres humanos.

Há o ateu por ignorância. É de conhecimento geral que o ser humano nasce completamente pobre, desarmado, nu, perdido e assustado. Ao nascer ele ainda se encontra privado daquele arsenal da inteligência, daquela ferramenta poderosa que mais tarde lhe permitirá a aquisição de conhecimentos novos e seguros pela via do raciocínio.

O tempo é o melhor remédio para esse tipo de ateísmo. De fato, no curso do desenvolvimento humano, o ateísmo é uma privação temporária, assim como são a falta de visão e a falta da fala. Tais limitações iniciais hão de ser superadas ou contornadas de alguma maneira na medida que o tempo avança e a criança cresce, sempre com o auxílio de terceiros que a vestem, alimentam, protegem e educam.

Entretanto jamais se pode dizer que essas privações (ignorância, falta de visão etc.) são boas em si mesmas ou naturais, pois em uma espécie sempre o perfeito (= completo, realizado, pleno) é tomado como a medida e o modelo do imperfeito e não o contrário. O bebê não é a medida e o modelo do homem, mas o homem adulto. O adulto é a medida e o modelo da espécie e é a sua ciência que deve e realmente é tomada como referência pela criança.

Criança recém-nascida

Há ainda o ateu por fraqueza. Esse já cresceu, os dentes de leite deram lugar aos permanentes, já fala e já se movimenta como todo bípede pensante, mas, por ter recebido uma educação precária ou por viver em condições muito difíceis, não é capaz de chegar ao conhecimento de Deus pela força de sua própria inteligência.

Essa situação é mais comum do que se pensa: a maior parte das pessoas precisa trabalhar para sobreviver e não tem tempo para o lazer requerido pela investigação racional, do mesmo modo há também aquelas pessoas que até possuem o tempo requerido para ela, mas não possuem gosto pelo estudo, preferindo antes morrer que aprender coisas mais complicadas.

É principalmente tendo em vista esses dois tipos de pessoa, as quais Nosso Senhor carinhosamente chamou de pequeninos, que a fé católica foi revelada e anunciada aos homens numa fórmula simples e breve. A fé inclui também aquelas verdades que são acessíveis à razão, mas que demandam muito estudo da pessoa. Isso é bastante útil para aqueles que, como dito acima, não possuem nem o tempo de lazer requerido, nem o gosto pela ciência necessário para a compreensão da verdade.

De fato, a fé é dom divino que supre a ignorância e a fraqueza, ela permite ao homem entender o que ele não teria condições de aprender sozinho. Quando toca à existência de Deus, a fé é um remédio para os pequeninos (ignorantes e fracos) e uma confirmação para os mais adiantados na ciência.

Crianças trabalhando

Há por último o ateu por orgulho. Dos três ateus, esse é o mais infeliz e o mais perigoso de todos. Ele possui tudo o que os outros dois não possuem, exceto a humildade. Ele também é um homem de ciência, como o sábio, mas a sua ciência é usada para a promoção de si mesmo e não para a promoção da verdade e do bem comum. A religião dele é o satanismo e ele faz jus ao primeiro ateu desta classe, isto é, Lúcifer.

… Embora o Anjo (caído) estivesse em verdade rebaixado pelo abandono dos bens superiores, embora ele estivesse, com Santo Agostinho diz, caído ao nível de seu bem próprio, ainda assim ele elevou-se a seus próprios olhos, e esforçou-se mediante argumentos poderosos (magna negotiatione) para provar completamente aos outros que ele não almejava senão a uma maior semelhança com Deus, pois desse modo ele procederia com menos dependência de Sua graça e Seus favores, e de maneira mais pessoal (magis singulariter), e o mesmo por não se comunicar com inferiores.

(João de São Tomás, Sobre o mal dos anjos. In: (KONINCK, Charles de. De la Primauté du Bien Commun contre les Personalistes. Laval: Editions Fides, 1943.)

Ele usa dos conhecimentos adquiridos como argumentos para provar que ele e os demais não precisam de Deus, que isso os fará pessoas melhores e mais livres. Ele é muito humanista e convincente nas palavras, um sedutor que vende seu orgulho como se fosse ciência. Esse ateu é aquele que jamais se dará por vencido, não importam os argumentos empregados pelos sábios.

A única coisa efetiva que se pode fazer é afastar-se dele e afastar os pequeninos de sua influência, porque ele se considera mais sábio que os santos e os doutores, mais valente que os mártires e os missionários, melhor e mais poderoso que Deus. E ainda assim, eis que as suas palavras são desmentidas pelo o que ele realmente é, os nossos olhos nos atestam que ele é precisamente o oposto de tudo aquilo que ele diz. Ele é um egoísta, abatido e humilhado por sua própria soberba. Ele é o maior inimigo de si mesmo e dos demais. A sua cegueira diante da evidência de sua corrupção moral, tal como a cegueira de Satanás, já é o prêmio e o castigo de seu orgulho injustificável.

Convém aos sábios protegerem as pessoas mais simples contra a megalomania desse terceiro tipo de ateu, o qual é por sua própria escolha um mentiroso e um corruptor de si e dos outros. Se fosse possível aos nossos concidadãos entenderem a gravidade e importância de militar contra esse tipo de ateu, certamente a profissão pública do ateísmo seria proibida e jamais um mestre, político ou magistrado ateu poderia ser tido como funcionário e amigo do Estado.

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