As Principais Teses da Metafísica Tomista

Rogier van der Weyden, São Jorge e o Dragão, c. 1432.jpg
A história humana é o desenvolvimento no tempo e no espaço de todas as manifestações boas e más em que se desenvolve a vida do homem. Os protagonistas da história são o homem, o diabo e Deus. A salvação do homem se faz na história e não pela história, a única salvação é Cristo que assumiu os defeitos da humanidade para satisfazer por ela… O progressismo reduz a realidade humana a uma única dimensão, a uma dimensão profana e secular, na qual é absorvida a outra dimensão, a de Cristo e da Igreja. Ao fazer uma única dimensão do divino e do humano, o humano não pode ser salvo pelo divino, o homem não pode ser salvo por Cristo e pela Igreja. Eis o erro fatal do progressismo: a autossalvação. A antiga gnosis revestia esse erro de um caráter sagrado, as novas variantes são deliberadamente seculares. (na imagem: São Jorge e o Dragão de Rogier van der Weyden, ca. 1435)

São Tomás produziu uma síntese inédita, a culminação de todo o pensamento anterior e a mais grandiosa realização do pensamento cristão.

Por um lado, São Tomás enfatizou a necessidade do acordo da verdade consigo mesma, ou seja, da ciência profana (filosofia) com a ciência sagrada (teologia), mas também afirmou que se deve distinguir seus domínios: a filosofia possui um método e objeto formal distinto do da teologia. As coisas que foram reveladas não podem ser demonstradas pela razão, porém elas não podem contradizer a mesma razão, pois um só é o Autor de ambas. Assim, a filosofia ajudará a teologia a elucidar os mistérios da fé, enquanto a filosofia será prevenida do erro pela teologia.

As grandes teses da filosofia tomista se opõem radicalmente ao pensamento gnóstico, imanentista ou modernista. Embora elas não possam ser consideradas como a necessária expressão da verdade católica, elas são as que melhor a expressaram e por isso mesmo têm merecido a aprovação cálida da Igreja.

Thomas Aquinas
São Tomás de Aquino (1225-1274)

I. O SER INTELIGÍVEL E OS PRIMEIROS PRINCÍPIOS. O primeiro objeto conhecido pelo intelecto é o ser inteligível das coisas sensíveis, o primeiro de todos é o ente, sua existência, porque cada coisa é inicialmente conhecida enquanto está em ato, isto é, naquilo que ela se apresenta diante de nós aqui e agora. O ente então é o primeiro objeto do entendimento e o primeiro inteligível, assim como o som é o primeiro audível.

Assim conhecido antes de estabelecer qualquer juízo e mesmo antes de distinguir-se o sujeito (eu) do objeto (mundo), nossa inteligência capta sua oposição ao não ser (nada), que se expressa pelo princípio de não contradição. A versão positiva deste mesmo princípio é o princípio de identidade, ao qual está subordinado outro princípio: o princípio da razão de ser. O princípio de razão de ser é aquele que afirma que o que é tem sua razão em si, se existe por si; ou em outro, se existe por outro. Esse princípio pede pela causa do ente e a resposta deve ser uma das quatro causas: eficiente, material, formal ou final. A esse princípio se ajunta o princípio de causalidade, segundo o qual todo o que chega a existência tem uma causa suficiente, ou seja, todo ser contingente (não absoluto), ainda que seja eterno, tem necessidade de uma causa eficiente e, em última análise, de uma causa incausada.

Portanto, o realismo tomista não se funda sobre um postulado, mas sobre a apreensão intelectual do ser inteligível das coisas sensíveis, sobre a evidência desta proposição fundamental: Aquilo que o entendimento concebe por primeiro como conhecidíssimo e no qual todas as demais concepções se resolvem é o ser.

II. AS VIAS TOMISTAS DA EXISTÊNCIA DE DEUS. As cinco provas de São Tomás repousam sobre o princípio de causalidade. No mundo há seres que deixam de existir, há aqueles que tem uma vida temporária e homens que possuem uma sabedoria limitada, uma bondade muito restringida que tem sempre suas imperfeições, de modo que é necessário que haja sobre todos Aquele que é o Ser mesmo, a Vida, a Sabedoria e a Bondade mesma. De outra sorte, o mais teria saído do menos, o perfeito do imperfeito, o ser do nada. Essa prova geral contém virtualmente todas as outras provas a posteriori da existência de Deus.

O cume das cinco vias é o Esse subsistens, o mesmo ser que subsiste; as cinco vias não são senão arcos que remetem a esse fecho da abóbada. Todas elas remetem a um atributo divino: primeiro motor de corpos e espíritos, primeira causa eficiente, primeiro necessário, ser supremo, suprema inteligência que dirige tudo. Cada um desses atributos não pode senão pertencer Àquele que é o mesmo ser subsistente.

III. A TRANSCENDÊNCIA DO ESSE, O SER DOS ENTES. O ser dos entes é o importante e originário da metafísica tomista e cristã. O esse é o constitutivo mesmo da essência divina, logo o esse não pode identificar-se com a essência criada e, por essa razão, deve ser uma atualidade nova acrescentada à essência criada e pelo qual ela existe. Posto que as coisas que existem são fundadas, o que as funda é o esse. Essências são possibilidades que somente podem entrar na realidade por meio dele. Por isso, o homem se refere propriamente ao mundo dos seres que encontra e não remete imediatamente ao mundo das essências.

Mas o ser dos entes não é senão uma participação, ou imitação ou assimilação do Esse subsistens. Esse ser dos entes criados é comunicado às criaturas por via da causalidade eficiente, da causalidade exemplar e da causalidade quase-formal.

Primeiro, o que faz que as coisas sejam não é a essência, mas o esse que lhes é comunicado por Deus, por via da causalidade eficiente, produzindo o esse das coisas, e através dele o ser e a coisa mesma. Assim, sendo Deus a causa eficiente, ele se distingue claramente da criatura e vice-versa. Deus não é a criatura, mas ele é o que a mantém na existência aqui e agora. Segundo, Deus comunica o ser por via de exemplaridade, isto é, tudo o que é criado é antes concebido na mente de Deus em todas as suas relações. Terceiro, Deus comunica o ser das coisas por via de quase-formalidade, porque o ser das criaturas procede do Ser Criador e, nesse sentido, existe uma participação das criaturas no ser de Deus. Mas diga-se quase-formal porque por mais intima que seja essa relação, ela existe somente no sentido de que Deus é a fonte do ser das criaturas.

IV. O ESSE DA CRIAÇÃO. Quanto mais universal o efeito, mais universal a causa. O efeito universalíssimo é o ser, logo a causa de tudo o que é no mundo deve ser propriamente Deus, e tal causação é propriamente uma criação, uma vez que produzir o ser absolutamente, não este ou aquele, é o que constitui a ação de criar. Logo, é manifesto que a criação é uma ação exclusiva de Deus.

O esse da criação deve ser necessariamente múltiplo, distinto e desigual. São Tomás demonstra contra as filosofias pagãs que Deus quis muitas criaturas, pois como o seu fim era representar sua bondade, ele jamais o conseguiria fazer mediante uma só criatura, de modo que muitas criaturas são capazes de representar com diferentes formas e graus a bondade divina, donde o universo em seu conjunto produzir uma imagem mais eloquente da bondade divina que uma única criatura por mais perfeita que fosse.

V. A CRIAÇÃO É ATO LIVRE DA INTELIGÊNCIA E VONTADE DO CRIADOR. A criação não é unicamente efeito do poder de Deus, da causa eficiente, mas também da causa eficiente dirigida pela sabedoria do entendimento, pela causa exemplar. A causa exemplar dirige e dá forma à ação onipotente de Deus.

VI. A CRIAÇÃO DO HOMEM E OS PROBLEMAS ANTROPOLÓGICOS. A alma não precede o corpo em existência, mas começa a existir com o corpo. Ela não é produzida senão por criação.

VII. O HOMEM, PELO DOM DA GRAÇA, PARTICIPA DA NATUREZA DIVINA. O homem não é Deus por sua natureza criada e finita. O homem não é uma centelha divina, mas pode chegar a ser Deus por adoção, mediante o dom divino da graça. Pela graça há no homem algo sobrenatural que provém de Deus. Algo que ergue o homem para além de suas forças e exigências naturais e o coloca na ordem divina de amizade e comunicação com Deus, de modo que possa contemplar Deus face a face e amá-lo como ele ama a si mesmo. A graça é esse hábito infundido por Deus na alma humana que o inclina a conseguir o bem eterno e divino da glória.

CONCLUSÕES. Sendo o Ser constitutivo de Deus, nele não há nada de negação, mentira ou maldade. As criaturas, porém, por terem sido tiradas do nada, têm o nada no seu fundo mais íntimo e radical, e nesse nada a mentira e a maldade. No entanto, a criatura, naquilo que é, é verdade e bondade vinda do Criador. O nada que existe nelas é apenas uma deficiência, ou melhor, uma dependência contínua e total de seu ser com relação ao Criador. Se a criatura quer por soberba libertar-se dessa dependência, então incorre no mal e no pecado. O mal provém da criatura não necessariamente, mas livremente. A criatura inteligente e livre pode fazer mal uso dos dons recebidos com independência do Criador. O Nom Serviam é o grito de rebelião do pecador contra as ordens divinas.

A história humana é o desenvolvimento no tempo e no espaço de todas as manifestações boas e más em que se desenvolve a vida do homem. Os protagonistas da história são o homem, o diabo e Deus. A salvação do homem se faz na história e não pela história, a única salvação é Cristo que assumiu os defeitos da humanidade para satisfazer por ela.

Se a salvação é Cristo e não o mundo, então existem duas dimensões radicalmente irredutíveis: as coisas sagradas que se ordenam de maneira intrínseca e direta a Cristo e as coisas profanas que não se ordenam de maneira intrínseca e direta a Cristo. Essas duas dimensões irredutíveis são, no entanto, harmonizáveis, porque as coisas profanas e seculares devem estar também, não por ordenação intrínseca e direta, fine operis, mas por uma referência do sujeito operante – fine operantis – ao serviço de Cristo (cf. 1Cor 10,31). Por conseguinte, o Cristianismo implica necessariamente Cristandade. E isso em virtude do papel subordinado que as coisas profanas e seculares tem de ter com relação às coisas de Cristo e da Igreja. Essas relações devem operar num mundo que queira harmonizar-se com Cristo. Mas como todas as coisas que dependem da vontade humana podem deixar de verificar-se, produz-se então o Anticristianismo e a Anticristandade. Se a Igreja não cristaniza o mundo, então o mundo, por assim dizer, seculariza a Igreja. Esse é o erro do progressismo.

O progressismo reduz a realidade humana a uma única dimensão, a uma dimensão profana e secular, na qual é absorvida a outra dimensão, a de Cristo e da Igreja. Ao fazer uma única dimensão do divino e do humano, o humano não pode ser salvo pelo divino, o homem não pode ser salvo por Cristo e pela Igreja. Eis o erro fatal do progressismo: a autosalvação. A antiga gnosis revestia esse erro de um caráter sagrado, as novas variantes são deliberadamente seculares.


Resumo do capítulo Culminación en Santo Tomás de la metafísica cristiana. In: MEINVIELLE, Julio. De la Cábala al Progressismo. Salta: Calchquí, 1970, p. 201-211.

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