Martinho Lutero vs. São Roberto Belarmino

Eis como um santo jesuíta refuta de maneira limpa e convincente a falsa proposição de Martinho Lutero sobre o Sumo Pontífice:

CAPÍTULO XVIII: OS DISPARATES DOS HEREGES SÃO REFUTADOS

Embora o que foi exposto até aqui sobre o Anticristo pudesse bastar, uma vez que claramente demonstramos que nada atribuído ao Anticristo nas Divinas Escrituras se aplica ao Sumo Pontífice, ainda assim, para que nada venha a faltar e em razão da manifesta audácia de nossos adversários, proponho-me a refutar o que Lutero, Calvino, Illyricus, Tileman, Chytraeus afirmaram na tentativa de demonstrar que o Papa é o Anticristo.

Lutero, em toda parte chama o Sumo Pontífice de Anticristo, especialmente em seu livro De Captivitate Babylonica, na sua obra Contra Execrabilem Bullam Antichristi, em sua asserção de artigos e em seu livro contra Ambrósio Catarino. Apesar de o fazer, somente um único argumento pode ser encontrado nesses livros pelo qual ele tenta prová-lo, nomeadamente em sua asserção do artigo 27. Assim ele diz: “Daniel predisse no oitavo capítulo que o Anticristo será um rei valente na fronte, isto é, como está em hebraico, poderoso com respeito a pompas e cerimônias externas, enquanto o espírito de fé está extinto, precisamente como vimos cumprido em tantas ordens religiosas, colégios, ritos, vestimentas, obras, igrejas, estatutos, regras e observâncias – e dificilmente se pode contar seu número.” Essas mesmas faces do Anticristo, como ele as chama, são enumeradas e profusamente explicadas em seu livro contra Ambrósio Catarino.

Apesar disso, o argumento de Lutero erra em três lugares.

Primeiro, em seu próprio fundamento, visto que a palavra hebraica sha-panin significa “robusto na fronte”, esta expressão hebraica se refere a um homem que não sente vergonha. De fato, especialmente a Septuaginta o traduz anaides prosopon, que é modesto na fronte. São Jerônimo e Teodoreto também o vertem assim, e Franisco Vatablus assim o explicou nas regras dos rabinos: “Forte na fronte é aquele que não se enrubesce, não se envergonha.” Além disso, o mesmo se obtém a partir de Ezequiel III: “A casa de Israel é de uma fronte desavergonhada, e de um coração endurecido. Eis aí te dei eu uma cara mais de aço do que as suas caras, e uma fronte mais sem vergonha do que as suas frontes”, o hebraico dessa passagem é: “A casa de Israel é robusta em sua testa, e eis que eu te dei uma fronte mais robusta do que a deles”. A frase não possui outro sentido que este (como Jerônimo corretamente observa): eles são de fato sem vergonha, mas tu não deves ceder perante a falta de vergonha deles. Embora eles façam coisas perversas corajosamente e sem vergonha, tu corajosamente e sem vergonha deves reprová-los. Sendo assim, Lutero deveria levar essa passagem em conta a fim de não ser desavergonhado na fronte, pondo sua interpretação antes daquela dos rabinos, Teodoreto, Jerônimo, dos tradutores da Septuaginta e do próprio Ezequiel.

II. O argumento de Lutero se desvia, porque não importa qual seja seu entendimento, ele não é capaz de inferir que o Papa é o Anticristo. Mesmo que ele fosse capaz de provar que o Anticristo seria poderoso em pompas e cerimônias externas, assim ele apenas concluiria que o Anticristo é quem quer que venha em pompas e cerimônias externas. Os lógicos ensinam que nada pode ser inferido de duas premissas particulares. Caso contrário, Moisés teria sido o Anticristo, porque ele estabeleceu tantas cerimônias no Êxodo e no Levítico que dificilmente se poderia enumerá-las. […]

III. Lutero erra ao atribuir a instituição de todas as ordens e cerimônias eclesiásticas ao Romano Pontífice, quando é certo que um grande número delas foram estabelecidas pelos Santos Padres, não pelo Romano Pontífice. A Igreja Grega sempre teve, e ainda tem, mosteiros, ritos, observâncias e cerimônias recebidas de São Basílio, São Pacômio e outros Padres Gregos, não do Romano Pontífice. No Ocidente, também temos as Ordens de São Bento, São Romualdo, São Bruno, São Domingos e São Francisco que, embora aprovadas pelo Papa, foram estabelecidas e dispostas por esses santos homens com os ensinamentos do Espírito Santo. Logo, se as ordens pertencem à fronte do Anticristo, então esses Santos Padres devem ser chamados ainda com mais razão de Anticristo do que o Papa.

Por fim, acrescento que as palavras de Daniel (exceto no que se refere a revelação do Anticristo em seu próprio tempo), aplica-se melhor ao próprio Lutero. Ele foi, sobretudo, desavergonhado na fronte, pois, sendo ele um sacerdote e um monge, abertamente se casou com uma virgem consagrada quando jamais se viu um tal exemplo em toda antiguidade. Similarmente, ele escreveu mentiras sem conta que tem sido registradas e publicadas por muitos. João Cochlaeus escreve nos atos de Lutero em 1523 que em um único livro de Lutero foram encontradas cinquenta mentiras. Em outra obra encontrou-se 874 mentiras. Além disso, não foi imensa sua falta de vergonha quando, em seu livro contra a Bula de Leão X, ousou excomungar seu Papa quando toda a Igreja ainda aderia a ele? Quem já ouviu dizer que um padre poderia excomungar um bispo? Sem dúvida, o Concílio de Calcedônia abominou a aspereza de um certo Dióscoro que, ao presidir o Segundo Concílio de Éfeso (isto é, o falso Concílio de Éfeso), presumiu excomungar o Papa Leão Magno. Porém, que paralelo pode haver entre Dióscoro, o Patriarca da Segunda Sé, na presidência do que supostamente era um Concílio Geral, e Lutero, um simples monge escrevendo em sua cela?


Trecho da obra De Controversiis, traduzido a partir da versão inglesa de Mr. Ryan Grant.

 

 

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